Casado, levei meu amor para Campo Grande. Moça, jamais saída do RJ, não piscou um olho nem quando descobriu que tinha que comprar carne as 2 da manhã pois a luz era desligada as 19 horas e não havia mais refrigeração. O boi era sacrificado e vendido na mesma hora.
Tambem não se abalou quando saindo de uma festa no Circulo Militar aí pelas 2 e pouco da manhã, a pé pois a cidade não tinha condução, fomos seguidos por um marginal, vestido a gaúcha, com a enorme adaga as costas na guaiaca. Apressei o passo, ele também. Parei e perguntei o que há? Encarou-me, pernas abertas, mão na adaga mas tirou rapidamente a mão da adaga quando abri o blusão e ele viu a pistola. Bebado, pediu um trocado para café, que dei, vendo-o afastar-se.
Após poucos meses como ela engravidou comecei a ficar preocupado com a falta de condução na cidade, pois como leva-la ao hospital? Assim, como já tinha tempo de Mato Grosso, consegui um curso no Rio e fui transferido.
Fomos morar na casa dos pais dela, saudosa casinha da rua Voluntarios da Patria 358.
Ai nasceu nosso primeiro filho, Hoche como eu e meu pai. Eu procurava andar atrás dele no quintal, com medo que caísse, mas mesmo nos meus 24 anos logo desistia pois o guri não parava um minuto. Após o nascimento da Ignez mudamo-nos para agradável casa na rua Mario de Andrade, ainda em Botafogo.
Essa casa tinha garagem onde pude guardar um velho carrinho que havia comprado, um Austin A8, que havia rodado apenas 10 anos.
Em seguida nasceram João, Ignez, Antonio Carlos, que eu quis chamar Antonio Raposo em homenagen ao grande bandeirante, mas Eunice não deixou, Isabel, Lulu, e Lena. Esta ultima quando já morávamos na Vila Militar. Minha saudosa heroína jamais se queixou das sucessivas gravidezes. Muito trabalho, pouco dinheiro, mas amor a Deus e aos filhos sobrando.
Lulu na verdade chama-se Maria Eunice, como meu pai gostava e pediu a minha mulher. Falecido ele quando ela nasceu seu desejo foi respeitado. O apelido veio dela chamar a lua quando voltávamos para a Vila, dizendo “olha o lu” “olha o lu”.
Nesse tempo todo eu servia como aluno, e posteriormente instrutor na Escola de Artilharia Antiaérea.
Atiravamos com os canhões na praia, na Barra da Tijuca então deserta. O NA da FAB rebocava o alvo, uma espécie de biruta metálica.
Sempre pediam que fosse um oficial nosso no avião, para maior segurança...
Nosso acampamento ficava um pouco afastado da posição dos canhões e a noite lá dormia um oficial com uma guarda. Uma das noites começaram a incomodar o colega, telefonando e dizendo ser o Sub-cmt. Perdendo a paciência, passou a mandar os telefonadores aquele lugar. Mas aí telefona o verdadeiro Sub que de nada sabia e ficou espantado ao ser agraciado com as invectivas.
Na Escola passei memoráveis momentos, alguns hilariantes.
Outros, mesmo sérios, convidavam ao riso como quando apareceu uma moça de 18 anos no quartel para se queixar que o sgto motorista do Cmt lhe tinha “feito mal”. O Cmt, severíssimo, sério, tinha o motorista na mais alta conta e não podia acreditar. Nessa época eu era Ajudante e fui chamado ao Gabinete do Comando para ouvir a história do sgto. Disse ele: Coronel o problema já estava completamente resolvido. Eu ia levar a moça para a minha casa mas o sr acredita que a fdp da minha mulher não concordou?
O pobre Capitão aqui que vos escreve quase saiu preso, mal conseguindo conter uma gargalhada!
O Cel perdeu a fala, ficou vermelho como um pimentão e disse ao sgto que este teria que responder na justiça.
Em outra ocasião um Major também muito compenetrado, em uma formatura sacou energicamente a espada. A lamina se desprendeu e voou pelos ares. O Major caiu de quatro e saiu catando os pedaços na grama! Foi outra ocasião em que mal contive o riso solto.
Naquele tempo era proibida a importação de carros, exceto para quem cumprisse missão no exterior, como um curso p ex. O felizardo (e eram poucos) trazia um carro, vendia e comprava um apartamento em Copacabana. Fizemos um falso oficio do Estado Maior designando um Capitão para um curso de Artilharia nos USA. Nesse oficio um também falso despacho do Cmt trocando o felizardo por outro.
Aí creio que exageramos pis as consequências poderiam ser sérias. O suposto prejudicado amassou o oficio na mão e entrou pelo gabinete do Cmt como um furacão, dizendo “Não admito essa molecagem!” Nossa sorte foi que o Cel era de boa paz e acabou rindo depois de nos dar uma boa chamada...
Nessa época em que eram comuns as correrias, boatos e ameaças revolucionarias, havia dois Capitães que eram gêmeos, extremamente parecidos. O General Cmt da Divisão teve a má idéia de reunir a oficialidade para saber o lado de cada um. Iam os oficiais dizendo “estou do seu lado” ou “desculpe Sr General meu pensamento é diferente” até que chegando a um dos gêmeos que era do tipo brincalhão que não conseguia se aguentar, declarou “estou do lado de fora General”. Não lembro quantos dias de prisão.
Estive alguns dias de licença quando um dos colegas contou-me uma incrível ocorrida em formatura da Escola. Era dia do Soldado e o Cmt queria chamar Caxias, simbolicamente. Para isso colocou um microfone escondido na varanda do 2º andar do prédio em frente a tropa. Ele diria: Caxias, Caxias, teus soldados estão em forma, comparece Caxias. O cidadão escondido com o microfone diria (como se fosse Caxias): Estou aqui!
Mas na hora H o microfone sofreu uma distorção e emitiu um uuuuuuhh esquisito em vez da fala de Caxias. O santo baixou em um dos formandos que passou a dançar na frente da tropa. Foi um fuzuê...
Servi vários anos na Escola. Fui instrutor, oficial da Sec Tec e Ajudante.
Em 1955 meu pai assumiu o comando do Regimento Floriano, na Vila Militar e eu as vezes pegava uma boa carona livrando-me dos insalubres trens elétricos. Deixou o Cmdo em 1958 com destino a Escola Superior de Guerra, passou a reserva após o curso e faleceu em 1960 aos 64 anos, de um AVC.
Em 1962 consegui uma casa na Vila Militar e nela residi durante 2 anos, mudando-me em seguida para um apto da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais onde seria aluno.
Um fato curioso dessa casa foi que por vezes eu dormia na cidade, voltando na 2ª feira para vestir o uniforme. Uma vez, ao chegar, notei luz por uma bandeira da porta. Sacando a pistola revistei a casa e vi uma janela arrombada e a porta do quintal aberta. Pelo chão do quintal um rastro de leite em pó derramado... Acho que o ladrão tinha sido apanhado quando cheguei. Pulou o muro e sumiu no matagal ao lado da casa.
Quando me apresentei na EsAO fui recebido pelo Ten Cel Joaquim Antonio da Fontoura Rodrigues, que eu não conhecia, e que me disse: o seu pai era único Tenente que me emprestava o cavalo quando eu era garoto filho do Cmt do Regimento. Depois ficamos grandes amigos. O Fontoura era um oficial corretíssimo, temido mesmo por quem não andasse direitinho.
Gostava de dar instrução de equitação para o curso de Artilharia e me mandava ir logo após ele. Mas havia companheiros que não montavam desde a Escola Militar além de não serem muito chegados aos quadrupedes. Assim, após saltar o 2º ou 3º obstáculo, já com muitos caídos, ele dizia: Hoche vamos voltar antes que se caguem todos...
Iniciei o curso em 1963, tempo do J. Goulart, inflação, desordem. Comunismo em marcha.